"O tempo, às vezes, parece não passar, é como uma andorinha que faz o ninho no beiral, sai e entra, vai e vem, mas sempre à nossa vista, julgaríamos, nós e ela, que iríamos ficar a eternidade, ou metade dela, o que já não seria mau."
José Saramago
A partir de um corpo que eu invento
Teus cabelos livres são o lento
Sopro de vento
Dentro de nós
Afastamento de estarmos sós
A partir de um vento que eu conheço
Teu olhar aberto é o começo
Onde amanheço
Onde me espero
Onde anoiteço, mas quero
Mostrar numa canção
Meu coração de fogo e ferro
Dizer de uma assentada toda a palavra desejada
A partir do corpo da verdade
Invento meu amor minha saudade
Copo de vento
Fome de vinho
Pão de centeio e tormento
Barrado com amizade
E amassado com sofrimento
Semente de amor verdade
Por resistir ou por morrer
Mostrar numa canção
Toda a palavra por dizer
Semente lançada ao chão
Por resistir ou por morrer.
Semente, José Carlos Ary dos Santos
Elas
Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque, naquele bairro, os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar.
Maria Velho da Costa (n. 1938, Lisboa), Cravo (1976)